Valorização da Cachaça com inspiração em outras bebidas alcoólicas

Renato Figueiredo analisa o que se deve copiar das outras categorias como vodka, whisky e vinho, e o que não se deve.

 

Parece uma pergunta simples, mas não é. Quando se fala em valorizar a Cachaça, há milhares de maneiras de se fazer ou interpretar isto. O principal é saber se inspirar nas outras categorias de bebidas alcoólicas de uma maneira inteligente.

A primeira coisa é que falar de Cachaça é falar de Cachaça, e não de vodka, whisky ou vinho. A Cachaça tem suas peculiaridades, e não precisa, de maneira alguma, se utilizar do vocabulário, das denominações, das frescuras ou ações de marketing de outras bebidas alcoólicas. Em outras palavras, a Cachaça não precisa falar em “harmonização”, “degustação”, “clube do whisky, ops, da Cachaça”, usar termos como “twist”, “ice”, etc. Pense bem, cada uma destas “palavras” ou “coisas” faz você lembrar de uma bebida: vinho, vodka, whisky… Para quê isto se a Cachaça pode ter as suas próprias invenções?

Mistura natural com frutas e especiarias: azulada, “Gabriela” (cravo e canela), gengibre, mel e limão, etc, maneiras diferentes de bebê-la (dentro de uma cuia, de um bambu, vai aí?), envelhecida no próprio tonel no barzinho, etc. A Cachaça tem um vasto território com várias possibilidades que diferem do universo das outras bebidas alcoólicas e a fazem especial também – falta só nomear tudo isto de uma maneira bacana e genuína. Não precisa se “inspirar” nas outras de maneira tão pouco criativa.

Agora, por outro lado, há algo sim que a Cachaça deve “copiar” das outras categorias (P.S: categoria é um termo que a gente usa para falar dos diferentes “tipos” de produtos no mercado, ok? Não tem nada a ver com a ideia de que um produto seja de melhor “categoria” que outro). Se sou contra algumas iniciativas que copiam outras bebidas alcoólica, sou totalmente a favor de ver a Cachaça nos mesmos lugares, com os mesmos preços, com o mesmo respeito e com os mesmos cuidados e “elegância” reservados à bebidas como a vodka ou o uísque. Mas a seu modo.

Aí fica a pergunta: falar em valorizar a Cachaça é então elitizá-la? Sim e não. Não porque não quer dizer tornar a Cachaça uma bebida “SÓ” de rico, e com toda aquela “frescura”. Sim porque é sim, torná-la uma bebida “também” valorizada pelas pessoas que consomem bebidas alcoólicas como o whisky ou a vodka em ocasiões de lazer. Muitas vezes este cara aí não “rejeita” a Cachaça – ou seja, diz que gosta sim quando lhe perguntam sobre ela. No entanto, são raras as vezes em que ele a consome. Mas a Cachaça tem para tudo não ser apenas aquela bebida que ele compra uma vez a cada dois anos quando viaja para Minas ou para o interior do país, que ele toma uma vez no sítio do amigo, ou que, embora não rejeite, simplesmente esquece que existe ao pedir sua “caipirinha” (com “c” minúsculo quando não tem Cachaça!). Valorizar a Cachaça é trazê-la ao cenário de consumo mais valorizado das bebidas alcoólicas hoje – e, mais importante, fazer isto a seu próprio modo. Um modo que a gente ainda vai ter que descobrir mais ao certo qual ele é: o jeito Cachaça de se valorizar a Cachaça.

Renato Figueiredo é um Cachaciador: aprecia a Cachaça de um jeito gourmet, brasileiro, e sem chatice desnecessária. É autor do livro “De Marvada a Bendita: A História, a Gastronomia e as Curiosidades da Cachaça, a Mais Brasileira das Bebidas”, no qual fala sobre este novo olhar sobre a bebida brasileira. (Ed. Matrix, 120p – nas livrarias).

Fonte: Mapa da Cachaça

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *